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11 de jan de 2010

Muito prazer! Sou secreOtário de escola…

Segue agora postagem do amigo Ricardo Marques, Secretário de Escola da DE Leste 5. Segue no fim da postagem o link da postagem original.

Muito prazer! Sou secreOtário de escola…

O governador de São Paulo resolveu dar aumento aos professores da rede estadual de acordo com o desempenho obtido em uma avaliação institucional a ser realizada pelos docentes. O decreto 55.217 de 21/12/2009 regulamentou o disposto na Lei Complementar 1097 de 27/10/2009 
Não quero ficar discutindo aqui neste espaço se o processo é legítimo ou não. A questão é o tratamento dado pelo DRHU para esta questão. De modo a viabilizar a antecipação do processo, o departamento determinou que as escolas estaduais deveriam providenciar uma coleta de dados sobre a freqüência dos docentes desde 1991. Isso (segundo eles) será necessário pois o sistema (nosso querido GDAE) só está com os dados consistidos a partir de 2002. Os anos anteriores estão armazenados em fita magnética.
Para a escola, o processo de coleta requer algumas tarefas. Consiste basicamente em fazer o levantamento das faltas do professor desde o ano de 1991 até o momento presente e inserir estas informações por meio de códigos no sistema GDAE.
Parece fácil, não é mesmo? Acredite… não é.
Em quase 20 anos, os professores normalmente passam por mais de uma escola. As fichas que controlam as freqüências em geral estão desarrumadas e incompletas. É um trabalho de decifrar e interpretar as informações. Em média, você gasta em torno de 1 hora para organizar e inserir as informações de UM ÚNICO professor.
Agora, vamos as contas…
Minha escola tem 59 professores entre efetivos e ocupantes de função atividade. Então, são aproximadamente 59 horas de trabalho. Vou arredondar para 60. Se eu trabalhasse meu horário normal de 8 horas diárias, eu levaria 7 dias e meio para esta tarefa (e eu teria que fazer somente isso). O e-mail com a determinação do DRHU chegou em 29/12/08, ou seja, no recesso escolar (isto é, a escola estava fechada). Assim, começamos a trabalhar a partir do dia 04/01 (primeiro dia útil).
O prazo para a conclusão da digitação era até 06/01…
Devo dizer, que além desta tarefa, o secretário cuida de outras coisas. No meu caso: digitação de notas, matrículas, atendimento aos professores e funcionários, organização dos documentos escolares, controle de folha de pagamento e outras pendências que surgem ao longo do dia.
Claro que não daria tempo…
Para ajudar, o sistema da PRODESP não aguentou o fluxo de informações. Congestionado, o sistema travou no dia 05 e o DRHU adiou o prazo de coleta para 07/01.
Ainda não daria tempo…
A instabilidade do sistema continuou no dia seguinte. E ainda eu tinha que cumprir o prazo de digitação de notas finais no ano letivo de 2009 (apenas 27 turmas, mas com tarjetas muito mal preenchidas). Com novo congestionamento, o DRHU prorrogou mais uma vez, desta vez para o dia 08/01.
Ainda assim, não daria tempo…
Aí na sexta-feira, o sistema caiu. Nada funcionava. Com isso, não digitei notas, não fiz folha de pagamento, não fiz a coleta.
E o DRHU adiou mais uma vez… para o sábado.
Sim, eu teria que trabalhar além das 40 horas semanais pelas quais sou pago. Sem receber nenhum adicional por isso. Engraçado que os professores recebem por serviços extraordinários (corrigir o SARESP por exemplo), mas nós secretários, não…
O sistema voltou… as 17h00 de sexta-feira. Aí minha diretora impôs minha ida à escola no sábado. Detalhe: na sexta-feira, fiquei até 23h00 na escola para tentar cumprir o prazo da digitação de notas. Esse eu cumpri… no dia seguinte.
Pois é… fui para escola. No sábado… e novamente fiquei até as 23h00. Digitei aquilo que pude.
E não… não consegui terminar.
Minha indignação é com o DRHU que simplesmente impôs um prazo descabido. Não levaram em conta a rotina de uma secretaria de escola, não levou em conta que seu próprio sistema não suportaria tamanha carga de informações e simplesmente jogou uma data.
Minha indignação é com as pessoas que sequer pisaram em uma secretaria e acham que somos máquinas e que temos todos os recursos disponíveis.
Minha indignação é com a SEE que acha que a escola só é feita de professores e alunos e esquece que existe um grupo administrativo responsável por gerir as atividades da escola. Não há valorização, não há reconhecimento, só há cobranças por resultados, muitas vezes impossíveis de serem cumpridos.
Minha indignação é com a Diretoria de Ensino que permaneceu obtusa a toda essa agitação. Não defendeu as necessidades das escolas e simplesmente repassou as informações do DRHU.
Minha indignação é com minha escola, com a diretoria… que se preocupou só com o fato de que isto mexerá no bolso dos professores, não se importanto nem um pouco com minha vida pessoal. Não se preocupou com minhas atividades no final de semana e impôs minha ida a escola.
E por que sou um secreOtário? Oras, muito simples: mesmo indignado com tudo isso, eu fui e me senti medíocre por não ter concluído satisfatoriamente meu trabalho, mesmo sabendo que o prazo não era viável.
E só um otário faz tudo isso, conscientemente mesmo sabendo que será prejudicado.

2 comentários:

  1. Vc falou tudo... eu tbm concordo contigo. Quando me perguntam o que eu faço, respondo; "Sou secreotário de escola" ou "secretino".

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